Que tristeza perceber a vida e seu sofrimento. Perceber a morte e sua salvação. Perceber o medo, o desejo, o prazer e a dor. Depois de estudar a sabedoria de Deus, realmente começamos a sentir que estamos no corpo errado, no lugar errado, no planeta errado e no mundo errado. O medo de morrer se torna cada dia mais intenso e constante, porém, a sua certeza acaba se tornando uma espécie de esperança já que o sofrimento da vida começa a ficar mais explícito também. Os estudos vão fazendo sentindo pouco a pouco mas como na prática nada ocorre, a ansiedade vai diminuindo dando lugar a angústia e ao apavoro de existir. Conforme o tempo passa, andamos pelas ruas convictos de que estamos sendo perseguidos pelo ciúmes. O ciúmes vai atrás até do mais miserável o deixando em um estado cada vez mais lastimável. Conforme vamos avançando com os estudos, fazemos inúmeras comparações entre as regras de Deus com nossos erros. Os erros do passado vão nos condenando em vida sem julgamento e os erros do presente começam a ser cobrados instantaneamente, o que nos pressiona e nos motiva ainda mais a morrer. O suicido só não se torna a primeira opção por temor a Deus. Não há como ter certeza que se nos suicidarmos não sofreremos algum tipo de dor profunda como consequência ou punição. Todas as pessoas que estão em situação pior que a nossa servem ainda mais para potencializar nossos medos de existir e as que estão em situação melhor não muda já que estas começam a não nos reconhecer nem a nós respeitar. Quanto mais aprendemos sobre Deus, mais ficamos miseráveis em relação as coisas materiais presos num mundo completamente material. Aprendemos que Deus não pertence a esse mundo e nem possui estima por ele, mas nós mesmos estamos aqui no mundo que ele aparentemente abandonou. Não há como dizer que Deus esteja aqui porque aqui o que está é a maldade, a fome, a dor e todos os tipos de sofrimento. Só conseguimos imaginar Deus afastado do mundo e o que há dele, uma mera ilusão. A vida se tornar a maior de todas as ilusões, já que no fim ela sempre termina com a morte e as vezes damos o azar de perceber somente quando ela sorrateiramente chega.
Da flor ao Chorume retrata meu lado literário e retrógrado pela confusa intenção de se autojustificar, traduzindo e condensando minhas opiniões filosóficas e comportamentais a fortes palavras de fúria e de alucinação. Deve ser triste demais precisar e não ter ninguém com quem contar. Entre o passado e o futuro há o presente. Entre o chorume e a flor, uma esperança.
1 de junho de 2026
Ureia
Gritos de criança ecoam na mente como um som sórdido da alma. Ele é o morador do abismo e aquele que salva o cativo contra o assédio da fome. É muito difícil entender a existência daquele que passou muito tempo sentindo o cheiro da própria urina, pois mais difícil que o trabalho pesado é o descanso verdadeiro. Enquanto sonhamos com nossa liberdade, o invisível observa o tempo certo para nos agarrar e o sofrimento cessa porque a resistência acabou. Estive pensando em como coisas sérias são totalmente incompreensíveis como a morte e a fome. A fome é algo que eu como sinto, posso analisar, mas a morte, o que dela podemos compreender sem a consequência do medo e da dor? Tanto eu quanto você não somos capazes de dizer que a morte é isto ou aquilo. O que sabemos é que o medo a precede e nada mais. Qual a qualia daquele que se sente ameaçado ou com seus sinais vitais caindo como uma pedra num abismo? Mas a cor amarela da urina é o retrato de que a pedra parou de bater nas paredes do desfiladeiro; ela agora apenas cai no vazio. Enquanto o corpo ainda acredita que pode vencer o perigo, a qualia é de constrição absoluta e distorção temporal. O cérebro inunda o sistema com uma descarga massiva de endorfinas, dinorfinas e, em alguns casos, substâncias psicoativas endógenas. A qualia muda do horror para uma dissociação anestésica profunda. Muitas pessoas relatam uma sensação de flutuar para fora do próprio "personagem", um desapego absoluto e, ironicamente, uma paz monumental. O sistema nervoso simpático dispara uma carga maciça de adrenalina. O tempo parece desacelerar de forma agonizante. Cada segundo se expande porque o cérebro está processando dados em velocidade máxima para encontrar uma rota de fuga. A experiência subjetiva aqui é o ruído puro: um peso esmagador no peito, a sensação de encurralamento e uma hiper-vigilância onde tudo ao redor se torna uma ameaça em potencial. É a mente lutando contra a gravidade do abismo. A sua mente tenta calcular essa qualia extrema porque ela projeta o pânico da resistência para o momento da queda. Nós tememos o fim dos sinais vitais imaginando que sentiremos a dor da perda deles para sempre, quando, na verdade, a perda dos sinais vitais é justamente o que desliga a nossa capacidade de sentir dor.
