9 de janeiro de 2017

Leve-me

    Leve-me a sério. Não subestime a aparência infantil do meu amor nem banalize os excessos da minha solidão.

    Minha carência pode deixar uma cicatriz, diminuir com suas esperanças, fazendo sentir-se perdida, sem ideia de como depois recomeçar.

    Você será infectada pela maior saudade dessa vida e irei te convencer de que valerá a pena ser humilde até depois do fim.

    Mas, quando esse dia chegar, falarei em seu ouvido que nada do que vive é motivo de embaraço.

    Que não é humilhação correr atrás de mim, ao mandar mensagens e insistir de novo, tentar novamente, nem que seja pela última vez.

    Você só se humilhará se estiver mentindo. Quem fala a verdade está em paz.

    Você só se humilhará se oferecer o que não pode dar. Falsas promessas não duram uma semana.

    Você só se humilhará ao perceber que está perdendo espaço. Amar é dar espaço.

    Você só se humilhará quando não souber o que está fazendo. Quem faz o que deseja não tem motivos de se sentir na dúvida nem envergonhado.

    Você só se humilhará se não tiver coragem de agradecer, mas no momento derradeiro, pedir desculpas, porque pedir desculpas é mais fácil, é agi conforme nosso desespero.

    Você só se humilhará se acreditar que não há mais vida, não há mais ânimo, não há mais força. Amar é ser fraco, mas ser fraco juntos.

    Amar é sofrer e ser feliz tudo ao mesmo tempo: a felicidade traz o esquecimento e o sofrimento deve criar coragem, mas não desanimar.

    Só desanima quem nunca quis. É por isso que eu quero por antecipação.

    Não se assuste com os meus planos. Significa que não terei vergonha do que penso e me entregarei por inteiro.


Ligações Perdidas

         O telefone de Marcela tocou, mas a euforia não era de atender imediatamente, na verdade queria antes de tudo saber exatamente quem era. Já faz tempo que o som do toque não traz a lembrança de uma visita inesperada. Já faz tempo que a vibração da chamada não chega perto do coração, simulando o reencontro. Já faz tempo que as luzes da tela piscando não carregava a memória dos amigos chamando na porta de casa. Marcela não sente mais susto, nem frio na barriga, não faz nem distraída cara de espanto. No máximo, a sensação é de tédio pelo escândalo logo cedo do despertador aborrecido. Pode ser o ex , pode ser o atual, Marcela não se vê mais disponível para gente assim tão de repente. No caso dos pais, alguém da família, ou do trabalho, uma amizade extremamente especial, então aceitava, era tratado como algo normal. Se houver um padrão, se for da rotina, mas, de qualquer forma, tem que merecer estar na agenda. Para não ignorar, precisava ter certeza de quem era. A vida de Marcela o tempo todo era assim. O tempo todo se achando sem tempo de dar tempo a quem não merecia. Pensa que seria desperdício falar com alguém logo no meio do dia. Pensa que seria chato da parte da pessoa ligar sem antes avisar. Pensa que além de qualquer conhecido poderia ser também alguém totalmente estranho querendo oferecer algum produto completamente inútil. Dependendo, recusava e em seguida checava se existia algum aviso plausível para tamanha ousadia. Pensa que era quase um assalto do seu tempo precioso. Pensa que era a maior inconveniência a se fazer em plena manhã com alguém tão ocupado. Mas, as vezes, de tanta curiosidade, por egoísmo, mandava mensagem perguntando quem era. Outras vezes a falta de paciência era tanta que não perguntava nada, caia na lista de ligações perdidas, quem sabe deixando algo fútil que jamais será ouvido no correio de voz. Marcela é uma mulher moderna e se sentia muito atarefada para conversas sem sentido. Com isso, aos poucos seu telefone deixava de tocar. Foi-se silenciando, bem como suas convicções. Se sentia incomodada com a insistência duradoura de quietude do aparelho. Após muito tempo sem receber ligação, decidiu telefonar para o professor de dança da academia e confirmar os novos horários de treino. Por infelicidade, o professor não atendeu, estava em algum evento com a nova namorada. Arriscou contato com o amigo nerd da faculdade, na desculpa de perguntar sobre o trabalho, mas o assunto não fluiu, parecia complicado ou tarde demais mudar de opinião. Tentou falar com a melhor amiga e deu azar, o celular sem sinal, quem sabe jogado em algum lugar próximo à beira da praia. O menino que estava se relacionando era talvez a última opção, então arriscou, apesar de imaginar o longo diálogo. Fracasso! Telefone deu ocupado. Levantou da cama e correu pra o quarto da mãe desabafar. Tentativa frustrada! A mãe conversava no telefone extravagante e sorridente sobre a noite anterior.


Desistência

    Tem dia que nem o sol ardente faz efeito sobre a pele. Você permite com paciência que os raios queimem seu rosto cansado. Você já não liga pra mais nada.

    Tem dia que acordamos e percebemos as batidas do pisar estremecer o alto da cabeça. Sentimos os ventos, quando não nos empurram para trás, nos deslocam para os lados.

    A imaginação começa desafiar as piores condições humanas, testando sua própria coragem.

    Realmente seria insuportável sobreviver numa cadeia? Seria realmente doloroso envelhecer, adoecer e observar a morte chegar?

    Nos sentimos já completamente feridos, sem a sensibilidade da dor. Nesses dias perdemos a preocupação com o futuro.

    Tem dia que acordamos completamente sem fome. Completamente sem sede. Completamente sem vontade.

    Já não importa sua condição. Já não importa os planos fracassados. Já não importa os quilos a mais que você averiguou na balança semanas atrás.

    Tem dia que nem o cheiro de café é suportável. O pão se torna pedra. O leite vira água. A carne é sem gosto. A salada amarga, seca igual papel.

    Você percebe que precisa se alimentar. Mas se a comida estiver ruim, não irá comentar com quem fez, não terá estômago para isso.

    É quando você já não repara e nem faz questão se o dia estará muito frio ou muito quente.

    Quando não escolhemos a roupa, saímos com a que estiver no corpo mesmo.

    Não fará diferença se a chuva cair e você estiver no meio do nada, indo para o trabalho, em cima da hora.

    Nesse dia nada mais o estressa. Nem o vendável que destruirá o penteado. Nem o calor que amarela os cantos da camiseta.

    É simplesmente não perceber. Não se importar. Não falar. Olhar para os próprios olhos e se perder na imensidão do universo.

    É querer que o dia termine logo para dormir e se esquecer.

    É não querer reclamar. É não querer agradecer. É não se sentir feio, nem bonito, é se sentir nada.

    Esquecer de todos e pensar só em você. Dar voltas em você, sem se questionar, sem se entristecer. É ficar parado ao seu redor.

    Quando alguém falar, não ouvir. Quando ouvir, não responder.

    Não é fazer pouco caso. É não ter mais força.

    Se for trabalhar de carro, o carro é quem vai dirigindo, nesse dia haverá mais vida na máquina do que em seu olhar.

    Os ombros caídos, segurando braços moles. Você descobre que, independente do seu desânimo, o corpo se arrasta, mas não para. Vai por conta própria.

    Se for de transporte público, a janela vira travesseiro, o banco vira sofá e o percurso já viciado se torna curioso como uma viajem sem destino.

    Pela manhã, os cumprimentos se misturam com bocejos, minúsculos gestos ou frases em vão. O sorriso a esmo é a única resposta às amizades, por mera educação.

    Não é por mal. É que nesses dias acabamos por fazer nosso próprio luto. Permanecemos em silêncio pela falta de sucesso. Ficamos quietos por respeito as lutas sem glória.

    É morrer, mas continuar vivendo.

O melhor é o que fica

         Quando somos deixados a ideia de que não podemos fazer absolutamente nada faz-nos mergulhar num estado de sufoco mas, ao mesmo tempo, essa ideia nos tranquiliza com a sensação de alguma liberdade à frente. Por que então não confiar nesse alívio já que ninguém obrigou o sujeito a tomar a decisão de partir? Nem sempre precisamos ficar com os olhos fixos no muro do prédio, na parede do quarto, no espaço lá fora ou na tela do celular grudado nas mãos. Nem sempre é preciso ficarmos nos indagando se queríamos ou não conviver juntos. As pessoas decidem tudo por conta própria. Só que nem sempre percebemos isso, muito pelo contrário, olhamos para trás com fascínio, com remorso, quando deveríamos dizer que nosso caso não poderia ter terminado melhor. Se fosse inventado, não teria sido possível acabar de outra maneira. Um dia, a pessoa chegou em nossa vida sem ser convidada. Um dia, a pessoa parti da mesma maneira. Chegará com uma pesada mala. Com uma pesada mala partirá de volta. Pagará a conta, sairá do restaurante e irá dar uma volta pelas ruas, cheio de uma melancolia cada vez mais radiosa. Você será responsável? Atrás de si vários anos de vida com quem justo agora sente que não poderá sobreviver longe um dia se quer e exatamente agora perceberá que esses anos estão mais belos na lembrança do que no momento em que tinham sido vividos. O amor entre você e o sujeito era belo mas doloroso essa é a questão: era preciso sempre esconder alguma coisa, dissimular, fingir, retificar o que dizia, levantar-lhe a moral, consolá-la, provar continuamente que o amava, suportar as reclamações de seus ciúmes, de seu sofrimento, de seus sonhos, sentir-se culpado, justificar-se e desculpar-se. Agora, o esforço desapareceu, e só ficará a beleza.


As possibilidades diante do próprio desespero

            Você namora, se envolve, faz planos, engravida e o homem se afasta. Você se sente sozinha, perdida e segurando um puta problema. O aborto sempre será uma opção! Por mais que seus princípios morais e religiosos sejam opostos a esse ato, você vai cogitar a possibilidade diante do seu próprio desespero. O avanço da tecnologia soma ao avanço da liberdade e padrões morais vão se desconstruindo assim como se desconstruiu o padrão de sexo apenas após o casamento, a negação religiosa do uso da camisinha, a negação religiosa do uso do anticoncepcional. A moralidade do "errado (ou não) abortar" um dia assentará a um pensamento quase unânime, com raras exceções. Pois um padrão só deixa de existir pelo surgimento de outros modernos , que correspondem às necessidades de? Eis a questão! Aí reside meu pensamento sobre o aborto: seria mais uma mudança na sociedade com fins econômicos? Uma mudança social voltada ao consumo? A mercantilização da vida dentro dos convênios ou das inúmeras clínicas legais e especializadas para o procedimento médico, a preços econômicos, dentro de planos básicos. Porque convenhamos de que não serão só as vítimas de violência sexual que farão uso desse direito e possibilidade jurídica muitoooooooo atrasados... Estará facinho, será só ligar e agendar... Fico curioso, pensar como serão as coisas mais para frente: a familiar é o mais intrigante, pois quê família? No livro Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley a gravidez já é um vexame.


Quem fala?

        Você sabe com quem está falando? Frase corriqueira em confusões nas quadras de futsal da região periférica de onde moro. A molecada solta com fervor a elocução de ameaça que impõe o seu poder. A negação de ser inferiorizado ou diminuído é traço marcante da cultura brasileira em todos os níveis. Você sabe com quem está falando? Eu sou o motorista do Ministro! Você sabe com quem está falando? Eu sou o vereador desse município! Você sabe com quem está falando? Eu tomava conta de uma fazenda de um coronel e hoje sou empregada doméstica de um diretor de uma empresa farmacêutica! A expressão por fim não deixa de ser um reflexo dramático daquele que deseja desesperadamente se separar da sociedade colocando-se longe ou muito a cima da fragilidade de ser quem ele é.


Zés Ninguém

            Precisamos lidar com uma cadeia absurda de burocracias antes de conseguir solucionar um problema em repartições públicas. O jeitinho é ai um modo de sobrevivência do cidadão brasileiro. Quem não tem status para deixar de ser cidadão e passar a ser gente só encontra uma solução diante do marasmo das leis muito bem aplicadas aos Zés Ninguém. O Despachante é então aquele que irá resolver os problemas dos outros vendendo suas conexões sociais, suas relações afetivas e seus acessos à favores que não conseguimos, mercantilizando o respeito que sozinhos não podemos conquistar dos outros que não nos enxergam como pessoas. O Despachante é o malandro, profissional do jeitinho. Ele vende jeitinhos e terceiriza suas amizades influentes. Isso porque nem todos são malandros, nem todos têm o saco de enfrentar as inesgotáveis exigência de um sistema público, inchado de documentos e registros, mas se houver uma forma de pagar pela execução desse trabalho melhor. O Despachante é então um produto da nossa cultura.


Ser comum

         Esse papo de jeitinho brasileiro parece ultrapassado, mas percebo que é pensar assim que revigora ainda mais nosso hábito de querer sempre se dar bem em tudo nada vida e ainda tentar apagar qualquer vestígio dessa vergonha em conduzi-la pautando-se inúmeras vezes pela troca corrupta de gentilezas. A nossa cultura é muito curiosa. Roberto DaMatta denúncia muito bem essa faceta brasileira de pensar que "Ser comum é ser inferior". Fez-me lembrar de uma situação muito clássica que é a fila do supermercado onde diz ser caixa rápido, para no máximo 10 unidades. Mas o brasileiro de fato acha que por ser 12, 15, 11, não irá fazer mal, não dá nada, não pega nada, suave, passa ai, rapidinho... e assim vai, da privada para esfera pública, sem o menor freio cultural.


29 de novembro de 2016

Cólera de Mártir

    Segure sua dor, esse órgão que pulsa em suas mãos.
    Segure sua raiva forte, sua ira reprimida e seu impulso violento.
    Segure essa incitação contra aquele ou aquilo que nos ofende ou indigna.
    Segure seu comportamento de ferocidade, de irritação contra quem te agride.
    Sinta seu ódio, espere borbulhar no canto da boca, experimente seu sabor.
    Aprecie o amargo desgosto escorrer dos seus ouvidos quase insensíveis, incapazes de captar algo bom, túnel para entrar e sair.
    Dê prestigio ao que seus olhos vêm com tanta precisão.
    Não seja tão modesto com sua percepção da realidade: boa parte das pessoas estão pouco se fodendo sim umas para as outras.
    Mas, por favor, não seja coitado, mesmo que seja verdade que no final das contas a vida sempre fracassa.
    Perca tempo.
    Deixe o medo.
    Errar não é humano?
    Eu faço amizade com a dor.
    Como um mendigo que recusa o albergue e se acomoda no chão da calçada.
    Como um soldado que obrigado aprendeu a desviar de tiros.
    Esquivo das flechas da morte como se estivesse bêbado jogando sinuca. Já jogou sinuca?
    Não se sinta intimidado nem apreensivo. Você já se acostumou com tanta coisa.
    Nos acostumamos a comer no mesmo horário, a usar determinado tipo de roupa, a pagar as contas no mesmo banco.
    Estude mais. Observe melhor as pessoas. Esqueça a velha publicidade vendendo vidas que não existem.
    Fazer o que se somos medíocres na natureza? Vamos sofrer em resolver isso buscando uma vida estética, pelas sensações? Uma vida sedutora: sexo, bebida, jogos, comida, viagens: uma opção boa, mas dificilmente acessível e jamais duradoura.
    Repito caminhos para não esquecer quem sou.
    Já não ligo para o cheiro desagradável da sala, fiquei trancado aqui por algumas horas, não sinto mais sua presença.
    É uma adaptação do meu próprio organismo para não sentir o incômodo do elemento desagradável que foi você em minha vida.
    E da mesma forma acontece no campo emocional. Nós nos acostumamos a usar com mais frequência determinados tipos de emoção.
    Algumas pessoas trabalham muito com a culpa. Estão sempre condenando alguém ou alguma coisa.
    Outros trabalham com a crítica. Pode ver tudo arrumado, mas se ver uma vassoura no canto da sala, o olho bate logo lá.
    Outros se acostumam com a baixa-estima. Já se acostumaram a se enxergar sempre de uma forma negativa.
    Eu me acostumei com o sofrimento. Isso é muito comum em pessoas que tiveram um passado muito sofrido. O tempo passou. Está em outra época mas continua se lembrando do tempo em que carregava cana na cabeça. São pessoas que não aprenderam a lidar e a lutar pela felicidade. Muitas pessoas não sabem oque fazer com a felicidade. Não sabem simplesmente senti-la. Outros não querem nem sentir com medo de um dia perdê-la.
    Mas no amor há uma vantagem que nem todos percebem, trocamos os órgãos.
    Muito cuidado, quando eu amar, saberei exatamente a dor que terei em minhas mãos.

25 de novembro de 2016

Histórias de Amor

           Qual história de amor não é uma "longa" história? Perguntar como foi, como começou, como terminou, como está. Respostas curtas serão respostas suspeitas ou cômodas demais. Mas que novidades haveriam nas longas? Que história de amor não é amor e ódio juntos em alguma medida? Que história de amor não é por fim um trecho da biografia de uma busca por conforto, presença, companhia, aceitação, entrosamento. Que história de amor não é hoje uma história de prazeres e vinganças, a luz do aconchego e das suspeitas, margens da transitividade, beira rasa da alegria, oceano fundo da indiferença, qual a promessa de que um amor jamais se tornará um constante mal estar? Que história de amor hoje tem final feliz? Que história de amor hoje tem final triste? Que história de amor hoje tem final definido? Que história de amor hoje tem conclusão? Que história de amor hoje tem moral? Que história de amor hoje tem amor sem ter frustração e que história de amor hoje tem frustração sem ter amor?

           Se foi uma história, foi um amor e quem ama sempre se desespera. De todos os jeitos, não encontra posição para dormir ou para escrever ou para viver ou para sorrir. Que história de amor hoje não te deixa cada vez mais surpreendido, cada vez mais frio, cada vez mais assustado, cada vez mais exigente, cada vez mais seletivo. Que história de amor hoje não te faria lembrar da impossibilidade de lidar com a separação como se fosse apenas uma indisposição, não te faz lembrar que será mais uma vez caso de paixão ou morte. Que história de amor não te coloca a mercê do acaso de ou sofrer ou não sofrer, ou inventar novas armas ou não estar em guerra por alguém. Que história de amor não nos coloca na rua, nos transforma em mendigos. Perdemos bens, a noção da realidade, a razão, e buscamos o perdão e a reconquista insanamente. Que história de amor não nos torna pedintes. São terra arrasada, são reincidentes, são torvelinhos, são redemoinhos, são furacões, são volúveis, são instáveis, são frágeis, são febris. Que história de amor não nos deixa calados e distantes, abandonando por meses atualizações nas redes sociais. Que história de amor não nos faz pensar na barbaridade de quem nos virou as costas aparentemente sem sofrer. Não existe nenhuma aparência escondendo seu pesar. É frieza mesmo. É indiferença mesmo. É pouco caso mesmo. Que história de amor não alucina. Não deixa trabalha mais, não deixa conversa mais, de não conseguir sair para se divertir, a vida para e ou esquecemos os amigos ou reencontramos todos num ato brutal da solidão. Quem não explode em suas histórias de amor? Promete esquecer e dois minutos depois está revirando tudo em busca de notícias. Promete não tocar mais no nome e vasculha as antigas conversas à procura de uma palavra esperançosa. É isso amigo leitor. As histórias de amor hoje são histórias frágeis, instáveis, que não dizem nada, sai um entra outro, goza aqui, faz gozar ali, para um tempo, mantêm-se sozinho, com os olhos aguados sem entender porra nenhuma.


24 de novembro de 2016

Quero você

      Quando começo a namorar sempre tiro fotos dela distraída. Coleciono seu lado mais íntimo nas pastas da criatividade. Arquivo a memória dos seus mistérios na mídia mais fina da minha percepção. Eu catálogo cada detalhe dos descuidos da sua beleza. O momento mais bonito da mulher é quando o corpo quer estar belo, mas em raros momentos escorrega na convicção. Gosto do final da maquiagem, hora em que o lápis dá os últimos contornos da majestade que se olhará no espelho. Momento curto, de extrema atenção e toque clássico, dança balé com os dedos. Eu sou cuidadoso com a imagem, capturo exatamente as que não me interessam, nossos caminhos são diferentes. Quero o que ela quer. Quero os olhos que nela brilham. Quero o ângulo da sua beleza. Quero que ela se surpreenda e diga nossa como estou estranha. Quero que ela se sinta sempre melhor que a luz do passado, mas deseje essa luz para revelar algo de novo agora. Quero a maior qualidade do seu rosto confuso. Quero a expressão aleatória das suas dúvidas. Quero o sorriso mais triste e os olhos mais baixos. Quero a beleza mais pura. Quero o encanto mais oculto dela mesma. Quero a formosura dela que ela ainda não descobriu. Quero a venustidade mais rara daquele dia mais quente, o sol a cortejará em laranja com dourado. Quero a oportunidade exclusiva de fotografar sem ela perceber a superfície mais suave da sua pele. Quero que ela se morda de raiva em saber que detenho o monopólio de seu glamour. Que tenho as fases mais neutras do seu charme. Que tenho guardado os encantos que ela nunca percebeu. Quero disponibilizar aos poucos essas riquezas. Quero fazer suspense com o brilho de cada momento. Quero ver a curiosidade dela no olhar e quem sabe fazer desse anseio a obra de arte com sabor e cheiro, azedo e doce, respectivamente. Quero extrair da sua fúria a essência mais gloriosa do seu poder feminino. Quero todo o seu pé, prateado de talento e destreza, a manicure faz sem sofrer o que eu me esforço até desmaiar. Quero mais que sua beleza, quero sua verdade.


Criançada

       Claro que é preciso disfarçar um pouco o sofrimento, talvez tirando fotos, talvez se maquiando ou então bebendo um pouco(para criar coragem), mas a insatisfação às vezes fica clara no vermelho do batom, no esmalte descascado, no cabelo natural, na independência adquirida, na consciência fina como um pó: se sente constrangida diante de tantos homens sozinhos e desesperados. Vai ficar mais constrangida ainda quando estiver envolvida, nessa época em que a satisfação individual é tão marcante. Vai reparar nas amigas solteiras, curtindo e reclamando, mas raramente com a mesma pessoa. Notará nas ordens, incomodada ficará com os gritos, paralisada ficará com a vigilância, sentir-se-á saturada da oferta de um amor banal. Será natural a troca rápida frente a tantas (decepções)opções. A paciência diluí-se no descarte: a rotina da mesma conversa vulgar, o ritual das mesmas frases esdrúxulas, o hábito das preciosas perguntinhas das mais inconvenientes que se possa imaginar, do repertório quando não chulo, superficial, quando não exagerado, fugaz, quando não poético, grotesco, do papo invasivo, do comportamento machista, que antes era sinônimo de virilidade. O constrangimento de ser feliz a dois vigora nos desejos líquidos mais profundos das pessoas, especialmente no da mulher que agora enxerga nitidamente o homem de debater nas ruínas dos seus próprios ossos.

Quando a conheci

      Mulher, pequena que cabe em meu abraço mais apertado. Grande, que diminui a minha confiança mais exagerada. Simpática, que não beija com a boca, faz massagem com os lábios, acalmando os ossos da nuca.

      Mulher, que organizar pensamentos que aparecem depois somem. Que desestabiliza as bobagens de ser homem.

      Seu jeito de sentar encanta, sempre bonita como as nuvens e as pernas cruzadas como de uma ginasta.

      Seus pés que você cuida como se fosse seu rosto. Suas mãos que você cuida como se fosse seus pés. Ao caminhar, segura o chão.

      Mulher, que nega despedidas, que não confia em finais, que acumula inícios.

      Mulher, que admira passagens como uma mariposa admira o lustre.

      Mulher, que abraça os cobertores como um bebe se arruma no ventre.

      Mulher, aproveita o barulho da chuva, lavando-se de olhos fechados.

      Não me encantei só pela sua beleza, mas por você valorizar coisas incríveis como um cabide.

      Não me encantei só pela sua inteligência, mas por me fazer perceber minha arrogância.

      Não me encantei só pelo silêncio do seu sorriso, mas pelo barulho da sua paciência. Estou certo de que não economiza talheres no café da manhã.

      Eu só queria saber o que há dentro das caixinhas da sua residência. Como tem dividido as riquezas da sua história.

      Eu só queria saber o tem desenhado no seu caderninho do curso de arquitetura dos seus pensamentos. Ou as fotos dos porta-retratos que guardam significados de talismã.

      Eu só queria te ver provocar ciúmes no mar ao tomar banho de sol.

      Eu só queria o carinho que você inventou com as pontas dos dedos.

      Eu só queria acordar vendo você me olhar como o céu olha você acordar vendo as estrelas brilhar.

      Eu só queria sua paixão de turista, ansiosa para cruzar todos os dedos das minhas mãos.

      Eu só queria seu amor generoso, quando toma banho perfuma a casa inteira.

      Eu só queria sua sinceridade de me olhar nos olhos, pois quando não olhar já saberei que o amor acabou.

O que se esquece

          Parei para olhar suas fotos e deduzi trechos do seu maravilhoso passado. Seria equívoco generalizar sua vida por algumas imagens perdidas em sua memória. Seria errado reduzir sua história a restos de tinta esquecidos no porão da sua alma. Seria inconveniente acender as luzes para voltar a brilhar esse jardim abandonado. Eu queria acertar qual a sua flor favorita, qual o pedaço de mato que seu olfato insistente não esquecer. Que cores combinam mais com o teu rosto. Se é o cinza das paredes dessa cidade , se é o verde da árvore frente ao portão da sua casa, se é o amarelo do sol que te ilumina quando você só quer sorrir sem saber por quê. Explica essa trilha sonora das fotografias que cantam o seu perfil, esse som tranquilo, parado como uma imagem. Que luz desenhou melhor a sua alegria, aquela que veio do azul do céu ou aquela que veio de uma festa inesquecível. Que luz desenhou melhor a sua melancolia, aquela que veio do vermelho do seu quarto ou a roxa do bar que você girou amizades. Seu amor, que luz fez molhar a sua pele suada ou fez borrar seu batom já quase ressecado. Quem salvou o seu melhor lado?

          Diante do flashback, eu me pus a comparar o que fui com o que sou. Todos, quando pequenos, sofrem com separações, com desavenças, com conflitos, indicativo de trauma, término da idealização e receio de parar num orfanato. E todos, quando maduros, consideram a separação e o individualismo necessário e natural. É impressionante o quanto nos esforçamos para manter os pais juntos, as amizades unidas, sem a preocupação com o registro do fato, a exaltação do momento, o disfarce de um sorriso abalado, de uma consciência real sobre a dificuldade da vida, e não realizamos quase nada pelo nosso conforto afetivo na vida adulta. A câmera frontal aliviou nosso orgulho ferido. Jamais deveríamos nos esquecer daqueles que capturaram nosso melhor ângulo. Jamais deveríamos nos esquecer de quem coloriu nossa euforia. Que cor sua vida teria no porta-retrato do meu coração? Pior que me esquecer no fundo do baú será me excluir na lixeira do seu passado...

Tanto faz?

Não escreverei para você entender.

Escreverei para não enfartar. Meus motivos são diferentes do seus e isso é o que compõe nossas diferenças: conhecer as inspirações. E daí se a barriga dela é fora de forma e eu me sentir atraído por todas a gorduras que ela esbanjar? E daí se o amigo que me acompanha vive em situação de rua e eu me sentir feliz pela sua presença? E daí se por a caso beijar um homem que desejava meu corpo nu em cima do dele? E daí se quando eu estiver noivo descobrir que ela fez em algum momento da vida dupla penetração? E daí se em quanto você amava seu companheiro dormia com outra na sua cama sagrada? E daí se por a caso em algum lugar da sua vida você se deparou com alguém que te instigou embora casada? E daí se você apensar da família e da figura de pai sentir prazer por alguém do mesmo sexo travestido naquilo que mais o excita? E daí se estiver numa balada e ver quem você acabou de beijar, beijar outro , e outro , e outra , ? E daí se você decidir ficar em casa deitado lendo um livro ou assistido um filme em pleno final se semana? E daí se você se masturba para não se lançar de cara no asfalto? E daí se você já não aguentar mais trepar com a mesma pessoa? Já experimentou dizer isso a ela ? Ela é importante demais para sua sinceridade miserável? A sinceridade está a quantos degraus da necessidade? Mentir para se manter de pé é a sina? Já voltou a fumar novamente? Já voltou com seu ex mais uma vez? Já voltou a roubar apensar das consequências ? Já volto a jogar apesar do azar, apesar da sorte, ? E daí se você decidir sair e se drogar, perder todos os seus bens e fazer seus pais levantarem da cama em meio a madrugada para lhe resgatar? Será que faz de você alguém melhor ou pior, em relação ao quê ? E daí quanto às relações ? Se você quer hoje estudar e amanhã ver TV ? Confusa sua vida ? Se você quer hoje trabalhar e amanhã inventar atestado ? Confusa sua vida ? Se você quer seguir às diretrizes pelos padrões de sua família e amanhã ser você em sua rebeldia extremada por carência de justiça quanto à realização de suas vontades pessoais ? Se você por anos tratou bem seu namorado(a) mas hoje não quis e justifica com palavras vazias, de uma carência imbuída ? Bipolar sua vida ? Querer mais, exigir mais, falar gritado, omitir a verdade, ficar em silêncio, chorar de amor, odiar por prazer, querer o fim de alguém, vingar-se com as unhas... E daí se você descobrir que você é o que é? Objetivo, pessimista, malvado, gentil, individual, hipócrita, lerdo, fingido, metódico, assassino, curioso, moralista... o que você é e onde você está ? Quanto você precisa beber para ter coragem de começar a beijar ? Quais suas vontades? Quais seus desejos? Por que ainda não mudou? Aliás, é preciso mudar? Preciso desistir de você?

Se você tem alguma certeza é por que não pensou até o fim!

Estrela de um Céu Nublado

      Impossível prever o que virá, controlar o que se vem; suportar o que já veio, esquecer o que se foi. Vinga-se com cuspe forte no chão ou sujando imprudentemente a via de rua.

      Faça o que for melhor que adoce o seu desgosto. Faça o que for melhor que umedeça a sua tragédia. Mas as palavras estarão prontas quando não quiser fazer nada. Na falta de opção a poesia poderá ser uma. Na falta de opção a música poderá ser uma. Na falta de opção pedir desculpas poderá ser uma. Na falta de opção voltar a trás é ter uma. Só não diga que não tem opção.

      Quem lhe amou esteve pronto para secar suas lagrimas ou limpar a sua demência no canto da boca. Quem lhe amou esteve pronto para capturar os passarinhos destreinados do seu estomago ferido. Não tenha medo de chorar no copo das mãos de quem um dia lhe acariciou. Não tenha medo de mostrar a alegria de sua tristeza. Não seja covarde em dizer não não há opção: gritar no vazio ainda é gritar.

      A infelicidade de um casamento destruído, de um namoro encerrado, de um emprego perdido. E nada muda, apesar da prisão, e nada muda, apensar dos lamentos, e nada muda, a mesma comida, o mesmo trajeto.

      Você dorme e nada muda porque os filhos ainda estão pequenos. Você dorme e nada muda porque agora os filhos estão crescidos. Você dorme e nada muda porque os filhos agora vão se casar e você dorme e durante o sono se esquece, mas nada muda porque ao acordar a ferroada arde, você perceber algo, como ter vivido à toa.

      A preocupação de se desperdiçar mais um dia de esperança e se ver sem opção. E o corpo lembra uma janela suja que todo o dia quer se animar em limpar, mas não limpa. Obscurece a luz que vem de dentro, a cor cinza aumenta, a vontade de levantar diminui. O cheiro do desinfetante é o cheiro do vômito que não curou a dor de barriga. É a vontade de ir ao banheiro com a cabeça pensando em diversos problemas. É deitar na cama velha depois do banho tomada, o som antigo dos rangidos lembra que nada mudou. Os buracos do chão se estendem como mapas da sua historia. As lascas do armário velho traçam as rusgas finas em seu novo rosto. Se limpa as gavetas para apagar vestígios da sua inexistência.

      Quando é impossível confiar em mais alguém. Quando é impossível acreditar mais em você. Quando se calar para não brigar. Quando concordar com a família para encerrar logo o assunto. Você ainda tem opção. Sorrir ou ficar serio. Ler ou aguardar a morte. Ignorar ou tentar ser gentil. Lembrar dos outros ou pensar só em você. Viajar ou pular nas nuvens. Deitar ou correr no mar.

      Sobrevivo mendigando o amor. 
      Pedir esmola ainda é uma opção.
        O que estou fazendo aqui? Parei para te olhar e me afoguei de silêncio. O que estou fazendo aqui? Pegando fogo de tanto te lembrar. Meu tempo ficou lento acompanhando seu sorriso. Sorrisinho falso como a de uma professora que elogia. Nunca estarei à altura dos seus seios. Nunca sujarei seu rosto de prazer. Por que vem me encantar sem perceber? Por que me embriagar com sua boca tão distante. O que está fazendo aqui? Adoecendo minha saúde, de saudade de esquecer.

O não ridículo

         Por que NÃO ser a favor da venda e do porte de arma? Por que NÃO ser a favor da liberalização do consumo da maconha, mas sempre confundir com o universo químico de entorpecentes? Por que NÃO ser a favor do abordo? Por que NÃO ser a favor da pena de morte? Por que descriminar a eutanásia? Por que NÃO ser a favor de moleque assassino ir para cadeia? Só não sei as razões do abandono de investimento dos sistemas prisionais: falta de dinheiro ou de caráter? Por que NÃO ser a favor da união de pessoas do mesmo sexo? Por que SER a favor de ensino religioso obrigatório em escolas públicas? Por que SER religioso, eis a questão. Por que NÃO querer um estado mais de esquerda, mas, se um dia ficar rico, preferir sim por melhorias nos sistemas privados e capitalistas, sem perder o reconhecimento pelo papel importante do estado no controle econômico e continuar pensando em políticas públicas, no acesso à cultura, ao lazer, à saúde, à educação, de forma pública ou abruptamente fiscalizada. Por que ter que fiscalizar? Olha que ridículo! Por que permanecer pensando em equilíbrio e meio termo só quando houver vantagem própria? Por que NÃO adorar namorar uma feminista, quando ela realmente é recíproca com suas opiniões. Por que NÃO adorar namorar um machista, quando também for recíproco, quando sempre bancar toda a sua disposição. Por que NÃO ser recíproco? Por que se incomodar em pagar as contas, quando não somos controlados e nem criticados. Por que NÃO ser a favor das cotas para negros em universidades e concursos? Por que NÃO ser a favor do enem? Por que querer sair sempre vencedor em um discurso, mas nunca se esforçar apenas para encontrar a pura verdade? Por que NÃO se questionar, mas afirmar o tempo todo? Suas respostas são verdadeiras ou fazem parte apenas da sua opinião atualmente mais vantajosa?

O Valor do Querer

       Não sou aquele que por ser romântico (normalmente vem de brinde a intolerância) facilmente cativa as mulheres com sua maquiavélica cordialidade.

       Aquele homem rico, em regra prepotente, que domina rapidamente as meninas, ostentando sua capacidade financeira de comprar alegrias.

       Aquele cara fingido, geralmente um coitado, que persuade elas de tal forma tão eficiente, mas tão ineficaz ao final.

       Até gostaria, mas não sou aquele garoto inteligentíssimo, de gênio forte, que simpatiza e encanta exatamente quem ele se quer imaginava que fosse a que tanto queria: menino de sorte!

       Não sou aquele homem completamente astucioso, quase sempre egocêntrico, que se debruçar nos detalhes da balada ou da festa no intuito fugaz de beijar todas ou as mais difíceis e se angariar diante dos demais.

       Aquele rapaz másculo de acadêmia, quase sempre um narcisista de batata doce, que excita e umedece os corações das moças por aí.

       Também não sou aquele moço belo, às vezes de caráter simples, que estimula a imaginação fértil das garotas por onde passa.

       Aquela figura bem apessoado, de um exuberante estilo e majestoso visual, que mexe com a criatividade delas e as fazem imaginar o que há por trás de tanto bom gosto.

       Também não sou pragmático, bitolado em meu trajeto certo de vida, que seduz qualquer uma que encontra a mudar de vida segundo seus próprios caminhos.

       Talvez o meu excesso seja saber exatamente quem sou. Aquele que não conquista alguém por exacerbação de especialidade.

       A conquista é semelhante a uma obra de arte. Você simplesmente faz sem se importar com as críticas e rejeições ou com os aplausos e homenagens. Você faz por que é a sua vida. Seu sentido de viver nela.

       Você se entrega como um pássaro que se joga na tinta azul do céu e rasga as nuvens, como dentes que puxam pedaços de algodão doce ao prazer do céu da boca.

       Você da importância a ela como um árbitro da a um final de campeonato. Percorrerá próximo a todos os lances sem nenhum escapar da sua aguçada responsabilidade. Andará de tanto cansaço, mas jamais sentará.

       Você a quer como um vaso quer o chão. Como um aquário quer os peixes, senão estará sozinho e esquecido como um tupperware velho.

       Você se esforça como uma joia que por milhares de anos se lustrou na terra.

       Você a deseja como um beija-flor faminto, dançando no ar.

       Você a observa como um gavião do alto do inferno e sonha pela tranquilidade de seu paraíso.

       Quando eu me interessar por você e você por mim, saiba que o meu interesse será uma necessidade, não como a de um pulmão que não vive sem ar, mas como a de um livro que não existe sem uma história.

Sensações pósteras

      Eu sinto tanto. Dentro em breve amará outro ao ponto de copiar caminhos e frases à homenagem de suas histórias, do que viveu comigo, do que aprendeu comigo, do que não quer que fique para o esquecimento, pois o amor será por outro, mas a esperança continuará sendo a mesma.

      Eu sinto tanto. Irá esquecer do meu toque, mas não esquecerá da minha voz.

      Eu sinto tanto. Arrume teu quarto com a lembrança da minha alegria. Dobre suas roupas e sinta o meu perfume. Vá ao shopping e use um dos meus presentes. Abra um livro e se emocione com a nossa história.

      Eu sinto tanto. Não me terá para dividir a salada de frutas gigante que trazia todas as manhãs de domingo na cama. Não dividirá mais a cama de solteiro.

      Não terá mais o acaso de alguém que escolhia filmes épicos para noites de sexta, a te sensibilizar, a te tatuava por dentro.

      Não estarei contigo quando lembrar dos familiares falecidos. Não estarei contigo quando esquecer de estudar. Não estarei contigo quando parar no tempo. Não serei mais seu relógio nem seu calendário.

      Não terá quem te lembre de novos concursos. Não terá quem lhe ofereça ajuda para pagar as inscrições, que lhe ofereça ajuda para ensinar disciplinas, que lhe ofereça ajuda a caminhar por um mundo que ninguém nunca mostrou.

      Eu sinto tanto. Ninguém iria incentivar a patinar, a jogar bola, a fazer acadêmia, a correr no parque, a fazer dieta e comer besteiras, tudo ao mesmo tempo.

      Receberá convites automáticos. Será parte de programas pré-estabelecidos, forjados pela nova conquista, e o que antes era rotina logo será passado.

      Começará a pensar no que não fez. 
      Começará a fazer o que deveria.

      A taça de vinho estará vazia. A chuva será água com gás. A pizza de 4 queijos terá meu sobrenome. Os espetinhos de tulipa terão a minha cor de pele. A desgraça lembrá o sabor do meu beijo. As alegrias terão a saudade do meu sorriso.

      Não terá mais a minha mão para segura. Não ouvirá mais a minha voz estremecida por algum problema do qual necessitaria da sua opinião. Não receberá mais o meu bom dia ofegante pelas manhãs. Não precisará mais estender os pés para me alcançar. Não será mais esmagada pelo meu abraço forte. Não terá mais o meu peito como teu travesseiro.

      Eu sinto tanto. Não ganhará mais rosas de chocolate junto com sapatos, após uma intensa discussão. Não ouvirá minha leitura poética, e agora buscará talvez direito da fonte, mas sem o gosto da minha boca para explicar, sem o gosto da minha empolgação para lhe confundir.

      Eu sinto tanto. Irá esquecer dos seus defeitos, convencerá as amigas de que fui um babaca, que não prestava, que não fui fiel. Sentirá ódio por imaginar que não te amai, que não me esforcei, que fui grosso, que fui incompreensível.

      Eu sinto tanto. Irá esquecer do meu estilo de roupa, do número dos meus sapatos, do tamanho das minhas camisas. Não se importará mais com meu aniversário. Não abrirá mais o meu armário para ver o que eu ainda não tenho. Não dividirá mais a toalha, não roubará mais os meus bonés, não terá mais as paredes do meu quarto para decorar com fotos impressas no papel.

      Irá me procurar pelo perfil dos outros, ansiado por notícias. Tentará prever por onde ando, com quem estou e para quem tenho escrito.

      Eu sinto, sinto mesmo não ter sido diferente, porque pelo menos não restaria tanta coisa para sentir.